Estou contente. Muito contente, até. Mas convém começar por pôr as coisas no sítio certo: isto não é histórico, não é inédito e não é nenhum milagre futebolístico. O regresso de Portugal ao sexto lugar do ranking da UEFA é apenas isso mesmo, um regresso. Voltar a um lugar onde, olhando para a qualidade das equipas, para o rendimento europeu e para a capacidade formativa do país, nunca deveríamos ter deixado de estar.
A última noite europeia ajudou a alinhar perceções com realidade. O SL Benfica venceu o Real Madrid por 4-2 num jogo absolutamente insano, com direito a golo de guarda-redes no último minuto, desses que parecem exagero mas acabam por ter impacto bem real. Não foi apenas um resultado marcante, foi um empurrão direto no ranking e uma daquelas noites que fazem o futebol português levantar a cabeça e lembrar-se de quem é.
O Sporting CP foi a San Mamés, esteve a perder por duas vezes e ganhou no fim. Não é só ganhar fora, é a forma como se ganha. É maturidade europeia, é saber sofrer, reagir e decidir. Já não é novidade ver equipas portuguesas a competir olhos nos olhos em contextos difíceis, e isso diz muito sobre o momento atual do nosso futebol.

E quando olhamos para o que vem aí, o otimismo não nasce do nada. O Sporting está forte, consistente e cada vez mais confortável neste patamar europeu. O FC Porto, sempre que cai na Liga Europa, assume automaticamente o papel que faz parte da sua identidade: lutar para ganhar a prova, sem desculpas e sem medo do contexto. No Benfica, um investimento forte é quase uma regra anual. O SC Braga continua a crescer de forma sustentada, joga cada vez melhor e já não é surpresa em competições europeias. E depois há o Vitória SC, em plena restruturação financeira, com uma cidade inteira por trás e um potencial enorme para, finalmente, atingir patamares que nunca alcançou, mas que fazem todo o sentido para a sua dimensão, identidade e peso histórico.
Durante anos, ouvir que o campeonato neerlandês era superior ao português parecia quase um dado adquirido. A Eredivisie foi, de facto, uma referência mundial. Um país pequeno que produziu talento em série, com nomes lendários como Johan Cruyff, Marco van Basten, Bergkamp, Ruud Gullit, Sneijder, Robben, Robin van Persie, Sedoorf, Koeman ou Ruud van Nistelrooy. Só enumerá-los quase dispensa explicação.
Mas o futebol vive de ciclos, e o atual já não é o deles. Hoje, olhando para o topo, é difícil não concluir que as melhores equipas portuguesas são superiores às melhores equipas neerlandesas. Mais habituadas à pressão, mais regulares na Europa e mais preparadas para contextos de Champions League. É verdade que a Holanda continua a ter mais profundidade abaixo do topo, mas quando se fala de ranking, vagas europeias e estatuto, o que pesa são as equipas que chegam longe. E aí Portugal tem estado melhor.
Convém também dizer isto sem rodeios: a grande vantagem histórica da Holanda nunca foi apenas a qualidade do topo, mas sim a distribuição geográfica do seu futebol. A Eredivisie é talvez o campeonato mais bem espalhado territorialmente do mundo, com clubes enraizados em praticamente todas as cidades, estádios cheios e uma cultura local fortíssima. Em Portugal, o futebol profissional está concentrado no litoral e maioritariamente no Norte, enquanto o Sul vive quase exclusivamente do Benfica e do Sporting. E mesmo com essa desvantagem estrutural evidente, o topo português consegue hoje ser mais forte, mais competitivo e mais decisivo na Europa do que o neerlandês.

Tudo isto ganha ainda mais força quando se olha para a formação. Portugal vive provavelmente o melhor momento formativo do mundo. Sim, do mundo. Até acima do Brasil, que atravessa uma fase estranha, de transição e identidade indefinida. O jogador português sai cada vez mais completo, taticamente inteligente, competitivo e pronto para qualquer contexto. Não é coincidência que esteja espalhado pelas melhores ligas europeias.

Ao nível de seleções, a comparação também não joga a favor dos Países Baixos. Ao longo dos anos, tornaram-se quase uma presença confortável para a Seleção das Quinas, acumulando memórias pouco felizes. Quando países de dimensão semelhante se cruzam repetidamente e o histórico pesa para um lado, isso também conta.

Por isso sim, estou contente. Não porque seja um feito irrepetível, mas porque este momento abre uma porta muito concreta e muito importante. Em 2027/28, Portugal pode voltar a ter três equipas na Liga dos Campeões. Três clubes portugueses no maior palco do futebol europeu, não por convite, não por favor, mas por mérito acumulado ao longo de várias épocas.
Num país pequeno, centralizado, com muitas limitações estruturais, mas com talento, competitividade e capacidade de se reinventar. Não estamos a escrever uma história nova. Estamos, finalmente, a retomar a nossa própria história.
E isso, honestamente, sabe ainda melhor.







