Sou defensor do VAR e não tenho qualquer problema em dizê-lo. Quem acompanha futebol há mais tempo lembra-se bem, e a malta mais nova já nem imagina, das injustiças absurdas que decidiam jogos, campeonatos e descidas. Golos em fora de jogo escandalosos, penáltis inexistentes, faltas claras ignoradas. O VAR veio para tentar corrigir isso e, nesse sentido, foi um avanço inevitável. O problema nunca foi o VAR. O problema é a forma como ele está a ser utilizado.
Vivemos hoje um paradoxo difícil de aceitar. Num futebol onde circulam milhões, com tecnologia de ponta e impacto global, continuamos sem um manual claro, objetivo e universal de regras. A arbitragem vive refém de uma palavra demasiado confortável para justificar quase tudo: critério. Diz-se constantemente que há lances que dependem do critério do árbitro, mas raramente se explica que critério é esse, onde está escrito ou quem o define. O mesmo lance é falta num jogo e segue noutro, sem que ninguém consiga explicar porquê.
O exemplo mais gritante é a eterna discussão da mão na bola e da bola na mão. Um lance que decide jogos continua a ser interpretado de forma subjetiva, semana após semana. O mesmo movimento, a mesma posição do braço, duas decisões completamente diferentes. O mesmo acontece com toques de braço na cara. Muitos são involuntários, fruto do movimento natural do corpo, outros são claramente propositados, usados para ganhar espaço ou travar o adversário. Ainda assim, tudo acaba muitas vezes marcado da mesma forma, como se não houvesse intenção, gravidade ou contexto.
Depois surgem as explicações do costume. Este árbitro deixa jogar. Aquele é mais paciente. Não deu cartão porque o jogo está a começar. Está a tentar controlar o jogo. Mas a lei não pode depender do minuto, da nacionalidade do árbitro ou do ambiente no estádio. A regra tem de ser a mesma aos cinco, aos quarenta e cinco ou aos noventa minutos. Caso contrário, não é uma regra. É improviso.
Este vazio legal não protege ninguém. Não protege jogadores, clubes nem os próprios árbitros. Pelo contrário, cria uma falsa sensação de poder, empurra decisões solitárias e deixa a classe constantemente exposta ao erro e à desconfiança. O VAR devia ser apoio, um recurso normal, um instrumento de segurança. No entanto, hoje parece quase um sinal de fraqueza. Há árbitros que evitam chamá-lo porque acham que fica mal, que tira autoridade ou que passa a ideia de dúvida. Isto não faz sentido. Dúvida não é fraqueza. Fraqueza é errar quando existem meios para corrigir.
Não quero entrar no campo da corrupção. Esforço-me genuinamente por acreditar que não acontece ou que acontece pouco. Mas é precisamente por isso que as regras têm de ser objetivas. Quanto mais subjetividade existir, mais espaço se abre para suspeitas, mesmo que injustas.
O mesmo se aplica à gestão do tempo de jogo. Comportamentos que deviam ser simples de resolver continuam a ser tolerados sem grande explicação. Jogadores substituídos que atravessam meio campo a passo lento, guarda-redes que perdem tempo descaradamente nos pontapés de baliza, lançamentos laterais intermináveis. Há VAR, há tecnologia, há cronómetros. Definir tempos máximos não é complicado. Passou o tempo? A bola muda de equipa. Sem avisos excessivos, sem pedagogia seletiva, sem bom senso aplicado apenas quando convém. A regra existe para ser aplicada, não para ser negociada.
É justo reconhecer que o papel do árbitro não é fácil. Aplicar dezenas de regras sob pressão monumental, com jogadores a protestar, bancadas a ferver e o receio constante de aparecer nas capas dos jornais no dia seguinte, está longe de ser simples. Alguns até parecem gostar desse protagonismo, mas devia haver um consenso básico. Quanto menos se fala de um árbitro, melhor foi a sua arbitragem.
Toda esta reflexão ganhou forma em jogos concretos. Na quinta-feira passada, ao ver um Viktoria Plzeň frente ao FC Porto, assisti a um abuso claro de perda de tempo por parte da equipa da casa. Compreendo e aceito isso. Faz parte do xadrez que é o futebol, sobretudo quando se está a ganhar a um dos favoritos à competição. O que não aceito é um árbitro deixar-se ir nessa gestão. O Plzeň aproveitou bem a permissividade, como qualquer equipa faria. O problema não foi quem perdeu tempo, foi quem deixou. O segundo tempo teve cerca de vinte minutos de tempo útil e acabou compensado com apenas cinco minutos. O empate surgiu no tempo extra, mas podia não ter surgido, e isso não pode depender da sorte.
O único argumento verdadeiramente legítimo contra o VAR é emocional. O VAR estraga o festejo imediato, e o festejo é talvez o maior sentimento do futebol. É instinto, explosão, catarse coletiva. O golo deixou de ser absoluto e passou a ser suspenso. Ainda assim, a pergunta mantém-se. Preferimos festejar um golo injusto ou esperar alguns segundos por um golo limpo?
O futebol perdeu espontaneidade? Em parte, sim. Mas tinha tudo para ganhar justiça. A responsabilidade maior é da FIFA. Cabe-lhe definir regras claras, universais e inequívocas, proteger os árbitros com leis sólidas e retirar-lhes o peso da interpretação criativa. Só assim poderemos perceber se os erros são humanos ou se estamos, de facto, perante incompetência.
Porque enquanto tudo for critério, ninguém é verdadeiramente responsabilizado.
E num desporto que tanto amamos, isso devia ser inaceitável







